Eu sei que as hierarquias sempre existiram e existem para que haja alguma organização. Neste caso, refiro-me a hierarquias laborais e de empresas em geral - grandes ou pequenas, todas têm uma hierarquia mais ou menos vincada. Nada de demasiado novo até aqui; uns mandam, outros obedecem com maior ou menor autonomia e cumprindo ou não as suas funções, outros andam a enfeitar ou a fingir que estão ocupados, ou ocupam-se a dar graxa aos superiores, etc. - o normal numa empresa com organização do tipo pirâmide.
O que não acho tão normal é a importância que damos à hierarquia nas relações interpessoais e nas formas de tratamento. Senhor doutor para cá, senhor engenheiro para lá, doutora isto, doutora aquilo, senhor professor xis e zê. Educação continua a ser sinónimo de títulos, de termos de utilizar três palavras em vez de uma para falarmos com alguém. É a burocracia aplicada aos relacionamentos. Como se o respeito ou a autoridade que alguém inspira ou possui se medissem pela quantidade de títulos que se utilizam para designar essa pessoa.
Esta situação irrita-me particularmente em empresas pequenas (porque é numa delas que trabalho). Sim, que não há-de ser por ser uma micro-empresa que não há direito a títulos, não senhor! Chefe é chefe e empregado é empregado e há que distinguir a coisa fazendo com que os funcionários tratem os chefes por senhores doutores, mas não vice-versa; isto apesar de as habilitações académicas serem as mesmas e as funções, praticamente as mesmas. E com isto, não quero implicar que queria que me tratassem por senhora isto ou aquilo ou de forma diferente. Só queria que fosse menos complicado lidar com quem trabalho todos os dias. É que o palavreado todo que implicam os títulos é assim um bocadinho...irritante. É uma perda de tempo materializada em palavras.
Pior ainda, achar que por causa desse mesmo palavreado estamos numa posição menos “importante”, não tendo direito a determinadas coisas. Direito a discordar e ter uma opinião diferente. A chamar a atenção - sempre educadamente, claro. Disso, não há palavreado que me impeça.
E de como são relativas. Quando estamos mais afastados fisicamente, acabamos por nos interessar mais por quem está longe, temos saudades, telefonamos o maior número de vezes possível, fazemos muitas perguntas e contamos muitas coisas. Até somos mais simpáticos, de vez em quando.Já quando estamos supostamente perto, esquecemo-nos cada vez mais dos outros. Passam-se semanas, meses sem que falemos a sério ou estejamos com alguém que até nos é próximo. E com tantos meios de comunicação à mão, para além de ser pouca a distância que nos separa, há muito poucas desculpas.É pena. E a culpa não é sempre dos outros. É da nossa eterna mania de adiar e esperar, esperar, esperar que sejam os outros a dar o primeiro passo. Mas eu gosto pouquíssimo de esperar e não sou sempre das pessoas mais pacientes. Dou alguns passos, que esbarram com a falta de tempo, com o trabalho, com outros compromissos, com adiamentos intermináveis e mudanças de planos; falta de vontade, também. Secalhar devia dar ainda mais passos; mas importa continuar a tentar. Sem medo. E escrevo isto para mim e para me lembrar disto, sempre.
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O pressuposto de que todas as mulheres, sem excepção, são azelhas ao volante, já vem de há muito tempo. E raro será o espécime masculino que nunca, jamais, em tempo algum mandou a sua boca foleira ou a sua piadinha fácil. Simplesmente para ofender, ou porque é um preconceito instituído e qualquer machão empedernido tem de o referir, ou com o objectivo de despertar a ira de uma condutora, ou por utilizar a piada mais à mão. E quando digo “piada”, não incluo aqui uma das frases mais batidas deste mundo, a celebérrima rima “mulher ao volante, perigo constante”, à qual se segue, no máximo, um sorriso mais do que amarelo e nunca uma gargalhada sincera ou aquele sorriso solidário de “essa piada até é gira”.
Se ainda por cima, o espécime masculino trabalha numa oficina, é quase indispensável que a questão venha à baila, nem que seja com um simples:
Consegue tirar o carro?
dito com um tom mais ou menos sarcástico e eventualmente acompanhado de um esgar de troça ou mesmo de piedade. Isto quando a porta da oficina está em frente ao carro e tem cerca de 15 metros de largura, sem obstáculos visíveis e com espaço e altura suficientes para passarem três camiões TIR, duas retro-escavadoras e um cão de grande porte. Para acentuar o tom discriminatório, podem ainda explicar o problema do carro recorrendo: a) a termos extremamente técnicos que quase ninguém percebe; ou b) falando muito lentamente e muito alto como se o ouvinte não fosse português.
A conclusão a que pretendo chegar não é nada transcendente nem visionária. Só que acho que a azelhice toca a todos, mais cedo ou mais tarde. E que acharmo-nos campeões da estrada não faz de nós melhores condutores. E era isso.
Com todas as novas tecnologias de comunicação disponíveis, cada vez devíamos estar mais acessíveis e contactáveis. Num mundo com cada vez mais ligações sem fios, seria de esperar que as informações circulassem cada vez mais depressa e que rapidamente pudessem ser partilhadas, sempre que quiséssemos e precisássemos. Via telemóvel, por exemplo (que faz hoje parte do conjunto de dispositivos que desperta maior número de relações de amor/ódio).
Não.
Muitas das pessoas que queremos/precisamos de contactar, geralmente:
- têm o telemóvel (ou vários telemóveis) sem bateria, por motivos que variam entre o esquecimento genuíno e o pensamento “isto ainda aguenta”;
- esqueceram-se de um ou vários telemóveis em casa ou no fundo da piscina ou noutro sítio qualquer;
- não têm rede;
- têm um problema raríssimo na central de mensagens e não recebem nada [a tempo];
- têm todos estes problemas em simultâneo;
- têm qualquer outro motivo [que muitas vezes, soa a estapafúrdio] para não estarem contactáveis.Sim, eu sei, tudo isto acontece de vez em quando a toda a gente, a tecnologia falha e errar é humano e se as vacas voassem é que tudo seria realmente mau. Mas haja paciência para todos estes problemas se forem crónicos. É que pôr sempre as culpas na tecnologia não resolve tudo. Isto porque muitas das vezes, a tecnologia depende de nós próprios.*Exemplo que despoletou este post e que se repete muitas vezes:- Bom dia! Recebeste a minha mensagem há bocado?- Não, porque [chorrilho de desculpas ridículas].
A mania de fazer corninhos aos outros ao tirar fotografias. Nunca percebi muito bem o porquê.É que nas fotografias de turma ou de visitas escolares, não é raro haver sempre uma meia dúzia de miúdos que se divertem a fazer corninhos aos outros - que por sua vez, ficam muito enfunados quando sabem que isso acontece no próprio momento ou quando as vêem depois.Será que é uma espécie de abordagem infantil empírica à previsão astrológica?Quem ficou com corninhos nas fotografias veio a tê-los na realidade?Alguém com uma teoria consistente? [E será que hoje em dia, o hábito se mantém?]
Aqueles que quando menos se espera ou quando já todos esperam, vêm à baila por qualquer motivo. Geralmente, para piadas e gáudio geral ou para lhes atirarmos com a culpa de todos os males do mundo.É que mesmo que se fale da cultura da batata nos Andes ou da interacção sócio-piscícola da truta, é sempre possível fazer um trocadilho qualquer com um "saco de porrada humano".Depois, a nossa atitude ambivalente: rimo-nos da piada para depois eventualmente nos culpabilizarmos e chegarmos a ter pena dos visados [ou secalhar...até não, em alguns casos].*Um exemplo recorrente: a banda do "sou como um rio, que vive só para ti...".
Pois. A preguiça, a preguiça de pesquisar e experimentar levou a que visse a vida cor-de-rosa durante demasiado tempo.Portanto estava muito mais do que na hora de mudar.Esta é a fase de testes número 1 :)
Seguramente uma das melhores qualidades de maçã do mundo (ver descrição aqui). Assim estaladiça, saborosa, tão pequenina, fôfinha, queridinha e tãaaao saudável e nutritiva.Agora imaginem esta maçãzinha assim mergulhada num fondue de chocolate.É daquelas coisas de cortar a respiração.*Até o nome é trincável.
Som que ouço neste momento pelo meu ouvido da direita, depois de levar com a chiadeira dos travões de um autocarro directamente pelo tímpano adentro, décibeis e décibeis possivelmente ilegais entregues por telefone e sem aviso prévio.Ou de como o microfone de um telemóvel pode captar todos os sons que nos rodeiam mas não os que realmente interessam: os de quem fala connosco.
O nosso potencial de abéculas ambulantes é muito variável. Ora vejamos:
1. abécula ambulante letal: aquela que ingénua ou propositadamente encarna o papel sem mácula e de modo crónico. Dedica-se a infernizar a vida dos restantes mortais com afinco, não olhando a meios para atingir o fim (que geralmente, não é nenhum em especial a não ser ser insuportável). A pior: a abécula ambulante inveterada e maléfica, cujo plano de infernização mundial e interplanetária é traçado ao pormenor para estraçalhar qualquer hipótese de resistência paciente. Desenvolve-se particularmente em ambientes de funcionalismo público, em repartições de correios, em locais com filas normalmente extensas e claro, na política (genericamente falando e não desfazendo ninguém em especial, uma vez que todas estas classes e locais possuem louváveis excepções).
2. abécula ambulante moderada: aquela cujos níveis de abeculice vão oscilando dentro do aceitável, embora tenha momentos de apoteose capazes de fazer desesperar o mais tolerante dos mortais. Observada frequentemente em posições de chefia, embora também existam, provavelmente, excepções.
3. abécula ambulante ocasional: a mais comum. Todos encarnamos esta personagem de vez em quando. Todos mergulhamos no abeculismo quando menos esperamos e reconhecê-lo é o primeiro passo para uma eventual cura. Ser abécula ocasional também pode ser obra de engenho e arte (casos raros).
E pior que uma abécula, só várias abéculas juntas - caso observado com frequência em determinados países mais ocidentais da Europa.
Outros títulos da série "Liberta...que há em ti":
Liberta o medieval que há em tiLiberta o biscateiro que há em ti!Liberta o sôdoutor que há em ti!
No seguimento do ódio figadal que possuo relativamente às passas - e constatei que afinal, não sou só eu - a fruta escolhida para acompanhar as doze badaladas foi a nutritiva amora. Sob a forma de goma, evidentemente, que nesta altura as amoras mais saudáveis e menos brutalmente açucaradas não se vêem muito. Portanto passas, nunca mais. Não se pode começar o ano com sacrifícios. Logo, assunto resolvido.
Mini-férias: boas, muito boas!Regresso de férias: já tem sido pior. Finalmente (e foram precisos alguns anos) começo a interiorizar que é inevitável voltar ao trabalho e não adianta ficar deprimida à medida que a contagem decrescente avança. Mais vale aproveitar tudo.O resto da vida em 2006 segue dentro de momentos!E agora se me dão licença, tenho de pôr as leituras em dia, que as saudades já apertavam.Nota: muito obrigada pelos vossos desejos todos do post anterior ;)
Para dormir mais. Para descansar os olhos, as costas, os braços do computador de todos os dias. Para fazer arrumações e ordenar coisas. Para comprar o que tenho de comprar há montes de tempo sem tempo limite para escolher. Para não fazer nada porque posso e quero. Para ver os ritmos da cidade com a calma de não ter horas. Para pôr as leituras em dia. Para estar sem ter de estar. Para estar só com quem quero estar.Não, não são resoluções de ano novo. São projectos de mini-férias. O Errortográfico volta na segunda semana de 2006. Não sem antes vos desejar boas entradas. Desejar que o vosso novo ano seja sinónimo de mais tempo para aqueles e aquilo de que gostam :) E que vos traga boas surpresas e algumas mudanças necessárias.Eu cá já tenho um dos acessórios indispensáveis dos tempos livres: a minha mantinha nova, uma prenda vinda directamente ali da neve do sistema montanhoso Montejunto/Estrela. E digam lá se esta velhinha simpática do embrulho não é a minha cara? Volto já ;)
Já com saudades, a vossaIzzoldinha
Retomando o tema cinzento que despoleta o dizer coisas de que não gosto: não gosto de imitações. Algo que inclui desde o suposto supra-sumo português da imitação (sim, aquele homem que está cada vez mais horroroso e que se nunca imitou propriamente bem, agora está pior do que nunca e com aquele ar ‘porque eu até sou jovem’; desculpem-me os eventuais fãs do senhor e desculpe-me o senhor também), até às pessoas que passam a vida ou grande parte dela a imitar (sem saber muito bem porquê, só pelo acto em si). Imitar é inevitável, sim; aprendemos muita coisa por imitação, pelo modelo/exemplo. Mas neste caso, refiro-me àquelas pessoas que imitam outras por sistema; se a pessoa A diz que gosta disto ou daquilo, a pessoa B irá começar a gostar rapidamente disso. Se A diz que fez isto ou aquilo, B irá fazê-lo, mesmo que não seja nada o seu género. E assim sucessivamente, muitas e muitas vezes. É irritante. Pronto, já disse.
Acho que os dias cinzentos nos fazem querer falar de coisas que não gostamos.Por isso: odeio passas, sultanas e afins. Uvas ressequidas em geral. Pronto, já está.*Gosto do cinzento desde que não seja nos dias e nas pessoas.
Dias para:
idealizar
v. tr.,
dar carácter ideal a;
imaginar;
criar na mente;
fantasiar;
planear.
Sem idealizar demasiado. Porque desde que a companhia seja boa, os momentos são ideais por definição :)
Broken Flowers, de Jim JarmuschUm filme de silêncios, de viagens interiores e físicas; melancólico, algo escuro, de solidão, de procura e de encontros ou desencontros. De pormenores subtis. De surpresas estranhas. Que recomendo.
Dias para:recomeçarv. tr.,
começar de novo.*Sem medos. Porque o mais importante, fica sempre guardado.*Daqui.