30/05/2018

Quatro patas


Tive poucos amiguinhos de quatro patas quando era pequena, porque os meus pais não eram (nem são) especiais fãs deles (actualmente, se calhar poderia ter animais, mas ainda não tenho, por vários motivos). Tive alguns hamsters a meu cargo, mas isso não conta muito como animal empático: os hamsters querem apenas que alguém lhes dê comida infinita para testar a elasticidade das suas bochechas. Alguns dos que tive dignavam-se a sair da toca quando assobiava, no espírito "tens algo para mim?" algo interesseiro. Nos tempos livres, dedicavam-se a roer tudo o que havia; sempre achei que na primeira oportunidade, iam evadir-se da jaulinha e mandar postais de um qualquer sítio paradisíaco para hamsters fugitivos, a beber daiquiris miniatura.

Os vários cães que os meus avós tinham sempre foram, e são, o escape, porque o cão é aquele amigo dedicado que jamais nos cobra nada. Eu lá aparecia, volta e meia, e eles eram sempre os maiores amigos. Não cobram, não querem saber se não telefonaste ou respondeste às mensagens. Não ficam chateados por apareceres menos vezes. Não querem saber se moras a 300 km. Deliram com a tua presença, como se fosses aquela pessoa que eles queriam mesmo ver naquele momento, e isso é tão simples quanto extremamente reconfortante. Mesmo que fiques tempos infinitos sem lhes ligar nenhuma, estão sempre lá para ti quando voltas, felicíssimos. O cão é o amigo eterno, que raramente se chateia. E é por isso que preciso destes cães emprestados.


Hoje faleceu um dos cães da minha avó, o Take, e com ele foi-se um bocadinho do que ainda restava da infância.

27/02/2018

Dos flagelos insignificantes

É mais fácil falar dos flagelos importantes. Aos mais insignificantes e ridículos, ninguém liga. 

Há os flagelos insignificantes de categoria ligeiramente alarmante: as meias com buracos. As meias que desaparecem para sempre na máquina, deixando viúvas as suas comparsas do outro pé. Aquele frasco que não conseguimos abrir, apesar da nossa grande dedicação no ginásio, e que contém um ingrediente de que precisamos . Aquele dedo do pé que está esmagado dentro do sapato, que aguarda a misericórdia quando finalmente calçamos os chinelos. Aquelas sandálias lindinhas que queremos muito usar, mas que transformam os nossos pés numa batalha sanguinária. Aquelas calças tão cómodas que deixam de nos servir. O bolor no queijo, apesar de todos os nossos esforços para o conservar de modo espectacular. O fim das nossas bolachas favoritas quando já não há nada aberto à face da terra. São muitos flagelos, todos bastante irrelevantes, mas que podem atazanar-nos e até destruir um dia (estou a olhar para vocês, sandálias da flor: odeio-vos).

E depois, há os flagelos mesmo insignificantes; os que nem merecem desprezo, de tão completamente esquecíveis. Aqueles que teimamos em ignorar, mas que quando nos lembramos deles, nos tiram do sério. Questionamo-nos o porquê de existirem, mas felizmente, poucas vezes nos lembramos deles. E sim, quase todos temos um ou vários destes flagelos de estimação, que odiamos com todas as forças, e que basta aparecerem no nosso dia para surgir também uma ira inexplicável; de repente, não odiamos mais nada e este flagelo insignificante é o menino-dos-nossos-olhos, sobre o qual vamos destilar todo o veneno.

O meu... são as delícias do mar. Detesto tudo nas delícias do mar: são profundamente mentirosas, porque de delícia não têm nada. Detesto as cores e o formato, porque só me lembram coisas artificiais. Detesto o facto de existirem e alguém achar boa ideia pô-las em paté, que é só uma das primeiras coisas que queremos atacar ao ter um ataque violento de fome num qualquer restaurante. Pronto. Agora que já partilhei isto com o mundo, digam-me lá, qual é o vosso flagelo insignificante de estimação? :)

19/10/2017

Do drama das combinações através de sistemas de mensagens

Dantes, era fácil. Uma pessoa combinava com um mês de antecedência, sítio X, hora Y. Toda a gente aparecia, ninguém se atrasava, a coisa acontecia e íamos todos à nossa vida. 

Todos sabemos bem que as coisas mudaram.

Agora, 4783 mensagens depois num qualquer grupo de um sistema de mensagens instantâneas, a coisa lá se combina, não sem antes:

- Serem propostas 12 datas diferentes;
- Haver uma análise ampla e detalhada do local eleito em 4 ou 5 sites e blogues de opinião diversos, com análise da pontuação média;
- Estudar o melhor trajecto numa qualquer aplicação de mapas;
- Haver mais 980 mensagens à última hora a avisar de atrasos/apresentar dúvidas sobre o local escolhido, apesar de todos os links já enviados/informar da situação da procura de estacionamento/maldizer os servidores da aplicação de mensagens pelo atraso indesculpável/amaldiçoar os atrasos dos transportes;
- Haver vasta documentação fotográfica da comida, do ambiente, das pessoas;
- Haver vários posts em diversas redes sociais a demonstrar como somos bons-vivants inveterados apesar da nossa eventual intolerância a (inserir favorito entre: glúten, açúcares, espaços sem itens de macramé, tudo isto).

Se calhar, precisamos todos de uma pausazinha. Tenho saudades de não ter de pensar tanto em coisas que deviam ser simples.

[Sim, estou deliberadamente a não referir o facto de ser a primeira publicação em mais de dois anos.]

27/04/2015

Dez anos, dez

Criei um blogue numa altura em que tinha muito tempo livre, há dez anos. Nunca escrevi tão pouco como recentemente, mas também nunca achei que este blogue tenha deixado de fazer sentido.

Em dez anos, mudou muita coisa; mudei de cidade, mudei de emprego (várias vezes), mudei eu, mudaram muitos à minha volta, mantiveram-se muitas pessoas de sempre e manteve-se este blogue. Por mais que eu insista em cá não vir, porque já não escrevo aqui todos os dias, há sempre aquele momento em que me apetece voltar. Volto hoje, para comemorar os dez anos e quase dois meses do velhinho errortográfico: porque mesmo assim sem querer, ele já é um dos de sempre.

09/01/2015

Ainda bem que não tenho reuniões presenciais sérias

Caso contrário, o penso rápido do Doraemon que estou a usar no polegar esquerdo poderia dar a ideia (certa) de que sim, uso pensos rápidos do Doraemon tendo muito mais do que 10 anos.

23/12/2014

Prenda de Natal

Ontem caí ao chegar a uma estação de metro cheia de gente. Não me magoei por aí além e levantei-me rapidamente. Não me doeu quase nada e fiquei só com umas nódoas negras extra.

O que me doeu foi constatar que ninguém se preocupou, ninguém perguntou se eu estava bem ou se até precisaria de ajuda, apesar de eu saber que quase toda a gente viu a queda e que se fez parcialmente silêncio. Nem uma pessoa. Por isso, obrigada, mundo, por me dares a indiferença de presente através daquelas pessoas que estavam na paragem. Vou lembrar-me deste péssimo exemplo em relação a mim para tentar ser menos indiferente ao que me rodeia, para tentar nunca ignorar alguém que caia à minha frente. É que não fiquei com vergonha de ter caído; fiquei com vergonha de alguma vez poder ter sido ou ser uma pessoa igual àquelas.

Bom Natal.

04/08/2014

Das coincidências!

Num curso que fiz este ano, houve uma troca de prendas aleatória no final, em que cada um levava qualquer coisa que tivesse a mais em casa. A professora garantia que a aleatoriedade ia fazer sentido; sorri e claro, não acreditei lá muito nisso. 

No final das contas, tanto a prenda que dei, como a que me calhou, fizeram sentido: recebi um colar vindo de não muito longe. E esse sítio de onde vinha o colar representa uma das viagens que quero fazer há já muito tempo; será que seria este ano que finalmente iria a esse sítio? Também não acreditei lá muito nisso.

Amanhã, parto rumo a esse sítio, numa viagem decidida muito à última da hora e que vai correr ao sabor da vontade. Ainda me custa acreditar nisso, mas o facto é que vou. E esta, hein?


04/05/2014

Mãe

A mãe que tira as nódoas que mais ninguém consegue tirar. A mãe que descasca tangerinas para não ficar eu com cheiro nas mãos. A mãe que gosta sempre de nós, estejamos gordos, magros, feios, desgrenhados, mal vestidos, mal cheirosos, sujos (e que nos abraça sem nojo nenhum). A mãe que nos leva ao colo mesmo quando somos pesados, só porque implicamos com areia dentro dos sapatos abertos. A mãe que compra o nosso pão favorito. A mãe que dá berros quando não queremos fazer os trabalhos de casa porque somos preguiçosos. A mãe que odeia falar ao telefone, mas faz um enorme esforço porque somos nós a ligar. A mãe que compra uma coisa quando dizemos que precisamos. A mãe que pensa em tudo. A mãe que acha que sabe quase tudo (e sabe mesmo quase tudo).

A minha mãe é a maior.

28/03/2014

Estás a ficar velhinho, Errortográfico!

9 anos e qualquer coisa, sem qualquer regularidade, mas com certa persistência.

14/01/2014

Um glorioso dia

Em que finalmente, depois de muito penar e me auto-flagelar pela minha péssima memória, redescobri o nome do meu vizinho da frente no escritório. O senhor que todos os dias espezinhava a minha memória com um "Bom dia, Isabel" irá agora ouvir de volta um "Bom dia, Rui", em vez de um bom dia muito bem intencionado, mas sem personalização.

Sete anos, sete

Há uns dias, passaram-se sete anos desde que pus os pés nesta cidade para ficar. Pelo menos, enquanto me apetecer ficar. Tem apetecido sempre, e por isso continuo cá. Cada vez mais, com a certeza de que as distâncias são muito, mas mesmo muito relativas.

Em sete anos, sete, muita coisa mudou, e só ao fim deste tempo começa esta a ser um bocadinho a minha cidade também, onde tenho bons amigos e onde já encontro pessoas na rua sem querer; a cidade que tem segredos que vou desvendando e na qual os pés conquistam cada vez mais metros e recantos.

A cidade onde nasci nunca vai ser esta, nem esta vai tomar o lugar da cidade onde nasci: venho orgulhosamente do cinzento; mas esta luminosidade já conquistou o seu lugar cativo no meu mapa pessoal.

E milhentos dias depois, é dia de voltar [outra vez]

Será que vai ser em 2014 que este blog vai ser desempoeirado de vez?

09/10/2013

Hoje não fazes anos

Pela primeira vez desde que me conheço, não fazes anos hoje. Não vais mais fazer anos.

Lembro-me sempre da avó que ia aos arames com o estenderete da brincadeira, quando tudo era matéria-prima para construir tendas na sala de estar. Da avó que fazia sopa como se cada prato tivesse de ter sustância para 3 dias. Da avó que dizia cibinho em vez de bocadinho, beigue em vez de bug e intermext em vez de Internet. Da avó de paciência infinita com o avô. Das idas ao mercado do Bolhão e do pão que eu pedia sempre antes de vir embora. Da avó que guardava tudo e mais alguma coisa e nunca sabia onde estavam as coisas. Da avó que adorava plantas e mais plantas. Da avó que ouvia mal, "não sei o que dizes, filha". Da avó que tirava a espuma do café toda. Da avó que tanto gostava de se queixar, mas que era das pessoas mais compreensivas e serenas que já conheci. Da avó que dava abraços muito, muito apertados. 

Quero lembrar-me sempre de ti assim, mesmo que nunca mais vás fazer anos. 




05/09/2013

Má educação

Confirma-se, algumas coisas não mudam desde que era miúda: a irritação profunda com velhotas que passam à frente da fila para o autocarro sem dizer nadinha. São as primeiras a dizer que a juventude é mal educada quando o exemplo delas consiste em fazer dos outros parvos. Pior que ter eventuais dificuldades em andar é ter sérias dificuldades em usar o bom senso.

23/08/2013

É do calor

Repetir mentalmente: não sou responsável pelas decisões dos outros. Sou responsável por deixá-los tomá-las sem lhes dizer que acho que estão a cometer um erro, tudo porque não quero ser responsável pela sua tristeza ou falta de coragem para avançar. 

Ser mais amigo é apoiar mesmo que não concordemos, ou dizer que honestamente não concordamos? Entre amigos diz-se tudo mesmo que isso magoe ou faz-se das tripas coração para apoiar, mesmo discordando?

13/05/2013

Quando o tempo nos apanha

Todos sabemos que o tempo passa e que é inevitável que passe. Mas insistimos em ver algumas pessoas como eternas; aquelas que sempre estiveram connosco e que nos viram (e ajudaram, e muito) a crescer. O tempo apanha-nos quando percebemos que agora, são elas que precisam da nossa ajuda para as mesmas coisas em que nos ajudavam. É aí que levamos aquele estalo da vida, a lembrar que há muito poucas coisas eternas, e muito menos pessoas. A lembrar que um dia, vamos ter de dizer adeus.

02/04/2013

É da chuva (e deve ser da Primavera também)

Chove há tanto tempo que parece que não mudamos de mês há meses. Sim, toda a gente fala disso, queixa-se, ameaça emigrar (ainda mais) e solta impropérios quando acorda e vê mais um dia feioso. Nada nos motiva tanto no queixume como a meteorologia. No entanto, acho que hoje tive um sinal claro de que a Primavera vem aí, de vez: uma das minhas violetas, que não dá flor há mais de três anos, TRÊS - as violetas são temperamentais e armam-se em esquisitinhas com os sítios - tem um botão de flor prestes a abrir. Por isso, é desta que estou superconfiante. Se isto não resultar, não sei o que resultará (mas estou já a pensar nisso, é o meu plano B caso toda esta superconfiança falhe. Aguardemos.

19/01/2013

Ele há dias

Tomamos uma decisão errada, simples, mas errada. O universo encarrega-se de nos mostrar, minuto a minuto desse dia, que tomámos uma decisão errada, por todas as vias possíveis e imagináveis, várias vezes ao longo do dia. Às vezes, da pior forma possível.

A única coisa positiva do dia de hoje foi ter adiantado a leitura devido a uma das maiores secas que apanhei na vida, ter tido uma total desconhecida a emprestar-me 30 cêntimos e ter um velhinho a contar-me a vida toda como se o conhecesse há 50 anos, durante 2 longas horas. Haja alguns pontos positivos, no meio da intempérie que envolveu levantar muito cedo com poucas horas de sono, secar escusadamentr num comboio, assistir mais uma vez a incompetência total para gerir uma situação de crise, tudo para chegar à conclusão que a decisão mais sensata envolvia...voltar para trás. Voltar atrás, tornando ainda mais inúteis todas as secas desse dia. Foi como se este dia nem tivesse existido, de tão absolutamente inútil.

O que vale amanhã é sempre outro dia, mesmo que hoje pareça não ter existido a não ser para nos tirar anos de sanidade.

11/01/2013

Lições pela manhã

Uma tentativa desatenta de panificação à herói (ou seja, insistindo na experiência apesar de faltarem ingredientes e de se descurarem partes importantes da mesma) resultou em redundante fracasso: uma tentativa de pão enchumbada, que apesar de passar facilmente num aeroporto cheio de regras se poderia transformar facilmente numa letal arma de arremesso. Julgo até que com propulsão adequada, o "pão" envergonharia vários metais mais pesados. Pois que a comida também pode ser uma arma.

05/01/2013

Do pão

Há muito tempo que ando num lento início de relação com o pão caseiro. Já houve algumas tentativas com sucesso, algumas com menos. No decurso da coisa, e à medida que ia lendo e descobrindo sobre pão, constatei que o melhor mesmo era fazer um workshop com quem soubesse mais da poda, para impulsionar a coisa. Esse workshop é hoje. E se eu já sou uma pessoa de opiniões vincadas relativamente à comida e aos ingredientes, temo vir muito pior logo à tarde; mas também com muito mais vontade de dar continuidade à relação com a panificação. A boa-nova é que mais impossível de ouvir eu não devo ficar, porque eu já consigo ser bastante...como dizer...persistente. Aguardemos.